quinta-feira, 2 de agosto de 2018

rio de janeiro I

estou redescobrindo as entranhas da cidade-ventre
Rio de Janeiro
uma mulher cai de um cavalo no meio da praça Xavier de Brito
há uma criança esperando sua vez e ela nunca nunca acerta a bola para além da rede
o pai coloca funk nos alto-falantes do celular
outra mãe com outra criança dança o funk que o outro pai colocou nos alto-falantes do celular
meus quadris balançam sim

não preciso dessa negação
há barracas de sacolé e o de coco é meu favorito mas tem leite então não chupo
as bolas atingem pessoas e ninguém se importa
aqui um vai tomar no cu bem emitido é declaração de amor
se um estranho se envolve ou interage do nada com você calma é normal não precisa fechar as mãos e nem endurecer
um homem lambe o vidro da porta do ônibus e ninguém vê
crianças pintam telas ao ar livre todos elogiam
não quero crescer porque a gente para de ser visto
na praça circular há apenas uma curva com sol e é lá que eu quero morar
no rádio um comercial de depilação tocando um jingle de funk
há muito funk
meninos jogam futebol no borel ouvindo funk
agora enquanto escrevo alguém passa na rua ouvindo funk

meu irmão tem um pendrive só com funks selecionados
uma criança pede para brincar comigo
não posso recusar
eu sou a única mancha laranja derrubando placas de sinalização tombando bicicletas e fugindo de cavalos que derrubam mulheres
eu sou a única pessoa a filmar pombos andando

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