quinta-feira, 2 de agosto de 2018

casa

diagnóstico:
é em vão regar as plantas com saliva
ou desenhar com os próprios dedos 
corações nas janelas embaçadas 
numa tentativa de ressuscitá-la
mesmo que eu lave o chão com prantos
ou que me masturbe nas quinas dos rodapés
ou que fale muito alto nos cômodos vazios
só para ouvir minha própria voz ecoar num lugar
entre o peito e a garganta 
ainda assim
a casa continuará morta
as paredes alvejadas ostentarão pra sempre
essas molduras vazias
e nenhuma explosão será capaz de traduzir o barulho
que elas fazem ao gritar
autópsia:
a casa está morta
eu a matei

estudos sobre a crueldade

1. 
no piso térreo do walmart
apenas uma caixa transparente 
piscando vermelho roxo verde
repete
emitindo sons agudos que me fazem zunir
repete
dentro: vários bichos empilhados
o elefante roxo tamanho p não consegue respirar
sua tromba está embaixo do corpinho do urso amarelo
que reclama qualquer coisa em língua de bicho
para o coala que tem seu nariz plástico colado à vitrine
todos muito tristes esperando resgate

2.
papai dizia que virava máquinas de pegar bichinhos
de cabeça para baixo
e trazia para mim dezenas de animais
o golfinho azul-piscina chamado daphne
era meu favorito
papai é meu herói

3.
estão olhando para mim com seus olhos escuros
os bichinhos dentro de uma caixa insuportável
eles querem sair mas é impossível agarrá-los
com garras que não conseguem apreender
nada
colo minha cabeça no vidro e encaro fixamente 
o leão vermelho com o nariz descosturado 
ele me esburaca de volta com seus olhos de pergunta morta
e grita socorro
subo as esteiras rolantes e peço na padaria o salgado
mais triste da vitrine
vou embora
eu não estou vendo mas eu sei
eu sei que o leão encara minhas costas

bomba

o microondas aqui de casa
sussurra coisas inconfessáveis
outro dia ele me disse
para enterrar
uma bomba no centro da face 
parece que só depois de encarar uma bomba
se pode saber todas as facetas
da bomba
se ela explodir
demorará dois segundos
para desfazer um corpo
de vinte e poucos anos
etc

rio de janeiro II

cariocas falam como se saboreassem 
lentamente 
algo delicioso ou como se sentissem sede
eu sou carioca mas não falo nem de um jeito nem de outro
só sei falar fogo estilhaço estalos

as crianças me veem
de longe elas veem

em alguma esquina da usina estou dentro do carro dançando funk
pelo retrovisor uma criança me vê e dança junto
eu no carro ela na rua
eu a olho e ela sorri tímida
trava
que horror olha o que crescer faz com a gente
travo


estou na arquibancada da escola assistindo um jogo de futebol infantil
uma outra criança vem até mim e diz
tu é muito tumblr gostei de você
tu é muito tumblr gostei de você
tu é muito tumblr gostei de você
não consegui agradecer


na rua dos araújos eu passo por uma criança brincando descalça
no chão sujo ela diz que eu sou linda
isso será minha oração quando eu acreditar no contrário


na escadaria selarón 2 crianças vendem desenhos por 50 centavos
pra mim vale ouro
agora enfeita a parede da minha sala
eu não preciso de uma casa com design escandinavo
eu não preciso nem de uma tv
e vocês não precisam sentir pena de mim


sim
existiu uma criança que não me viu
e ela estava sentada num balanço olhando o celular
ela parece eu

rio de janeiro I

estou redescobrindo as entranhas da cidade-ventre
Rio de Janeiro
uma mulher cai de um cavalo no meio da praça Xavier de Brito
há uma criança esperando sua vez e ela nunca nunca acerta a bola para além da rede
o pai coloca funk nos alto-falantes do celular
outra mãe com outra criança dança o funk que o outro pai colocou nos alto-falantes do celular
meus quadris balançam sim

não preciso dessa negação
há barracas de sacolé e o de coco é meu favorito mas tem leite então não chupo
as bolas atingem pessoas e ninguém se importa
aqui um vai tomar no cu bem emitido é declaração de amor
se um estranho se envolve ou interage do nada com você calma é normal não precisa fechar as mãos e nem endurecer
um homem lambe o vidro da porta do ônibus e ninguém vê
crianças pintam telas ao ar livre todos elogiam
não quero crescer porque a gente para de ser visto
na praça circular há apenas uma curva com sol e é lá que eu quero morar
no rádio um comercial de depilação tocando um jingle de funk
há muito funk
meninos jogam futebol no borel ouvindo funk
agora enquanto escrevo alguém passa na rua ouvindo funk

meu irmão tem um pendrive só com funks selecionados
uma criança pede para brincar comigo
não posso recusar
eu sou a única mancha laranja derrubando placas de sinalização tombando bicicletas e fugindo de cavalos que derrubam mulheres
eu sou a única pessoa a filmar pombos andando

nunca serei casa serei lâmpada

doutor, é claro que não digo que gostaria de morrer mas tenho visto toalhas e vasos de plantas tentarem suicídio no parapeito da janela o m...